Entendendo o transtorno bipolar

Para uma pessoa com transtorno bipolar é difícil encontrar balanço na vida. No extremo da alegria, ela pode encontrar a mania, que se caracteriza por humor expansivo, elevado e até irritadiço por ao menos uma semana, além de devaneios e autoestima elevada. Ela se sente invencível e assume comportamentos impulsivos e de alto risco. Já no extremo de depressão, a pessoa perde interesse em hobbies, perde o apetite, tem modificações no sono, fica mais lenta, sente-se culpada ou incapaz, além de sucumbir muitas vezes a pensamentos suicidas.

Ambas as fases apresentam riscos a vida do paciente. No mundo, de 1 a 3% dos adultos manifestam algum sintoma do transtorno bipolar. Embora a maioria consiga viver normalmente com adequado tratamento, milhares tem suas relações pessoais, seu trabalho, sua capacidade de aprender, e outras atividades rotineiras ditadas pelo transtorno. O quadro é resultado de muitos fatores, como genética e o contexto social. Mas nós médicos acreditamos que as ligações entre os neurônios estejam no centro da causa. Através de técnicas avançadas de imagem, é possível constatar que os neurônios de pessoas com transtorno bipolar estabelecem conexões mais “confusas” que levam a comportamentos anormais, como discursos sem sentido, alucinações e paranoia.

Esses comportamentos estão também relacionados ao desbalanço de neurotransmissores, como a dopamina. Tais mediadores são parte importante do tratamento desta doença. Sabemos ainda que ocorrência do transtorno é fortemente relacionada a aspectos genéticos, mas que não pode ser associada a um único gene, mas sim a um conjunto complexo de vários genes.

Apesar disso, é possível manter o transtorno controlado, com de estabilizadores de humor como o Lítio, que impede oscilações patológicas do humor ao reduzir exacerbação da atividade anormal do cérebro e reforçar as ligações viáveis, as conexões entre os neurônios.

Outra via é o uso de medicamentos antipsicóticos que reduzem os efeitos da dopamina. Além disso, existem as técnicas de neuromodulação, por exemplo a Estimulação Magnética Transcraniana, aprovada na fase depressiva do transtorno bipolar, com impacto favorável sobre o humor e funções cognitivas (como memória, atenção, planejamento e tomada de decisões).

Muitos pacientes temem o tratamento por acreditar que ele prejudica suas emoções e sua criatividade, entretanto nós psiquiatras procuramos tratamentos mais modernos e customizados que permitam aos pacientes viverem plenamente. Abordagens sedativas, que costumavam provocar apatia, sonolência, lentificação e alterações de memória não mais são recomendadas no tratamento de manutenção do transtorno bipolar.

Além disso, pequenas mudanças de hábitos podem ajudar, como a prática de exercícios físicos, bons hábitos de sono e evitar álcool e cigarro. Sabemos que os relacionamentos, bem como a empatia e apoio de amigos e familiares são essenciais. O transtorno bipolar é uma condição mental que por meio de um psiquiatra compassivo, de terapias adequadas, e com o apoio de pessoas próximas, pode ser controlada e permitir que o paciente assuma o controle da sua vida e volte a ser feliz.